Dia Internacional das Mulheres Rurais: as guardiãs da terra, da história e do futuro

Raízes de uma data que brota da invisibilidade

Em 15 de outubro, o mundo volta o olhar para um grupo que raramente ocupa as manchetes, mas sem o qual seria impossível falar em alimentação, cultura, território ou sustentabilidade: as mulheres rurais. O Dia Internacional das Mulheres Rurais foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 18 de dezembro de 2007, por meio da Resolução 62/136, reconhecendo “o papel crítico e a contribuição das mulheres rurais, incluindo as mulheres indígenas, para o desenvolvimento agrícola e rural, a segurança alimentar e a erradicação da pobreza” 1.

Essa não é apenas uma data comemorativa. É uma forma de corrigir um silêncio histórico.
Ao longo de séculos, a mulher do campo foi vista — e, muitas vezes, apenas contada — como ajudante, esposa ou coadjuvante na produção rural. Mas sob essa aparência de anonimato há um papel essencial: o de quem planta, colhe, educa, preserva tradições e sustenta famílias inteiras.

Hoje, o 15 de outubro é mais do que um marco no calendário internacional: é um espelho da sociedade. Refletir sobre o lugar das mulheres rurais é também refletir sobre o modo como o Brasil e o mundo cuidam de sua base — o campo, a terra, o alimento e o trabalho invisível que mantém tudo de pé.


A ONU e o reconhecimento global

A decisão da ONU nasceu de um consenso crescente nos organismos internacionais: as mulheres rurais são fundamentais para os sistemas alimentares, para a biodiversidade e para a economia global. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), as mulheres representam cerca de 43% da força de trabalho agrícola mundial 2. No entanto, elas enfrentam desigualdades persistentes em relação ao acesso à terra, crédito, tecnologia e participação política.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) calcula que, se as mulheres tivessem o mesmo acesso a recursos produtivos que os homens, a produção agrícola poderia aumentar até 30% em alguns países em desenvolvimento, o que reduziria significativamente a fome no mundo 3.

Mas o significado da data vai além da produtividade. É um convite a reconhecer dimensões invisíveis — culturais, afetivas e simbólicas — da vida rural feminina. A mulher do campo não é apenas uma produtora de alimentos: é guardiã de memórias, de saberes tradicionais e de valores comunitários que atravessam gerações.


Brasil: a força silenciosa que alimenta um país inteiro

No Brasil, o retrato das mulheres rurais é tão vasto quanto a extensão do território. Segundo o Censo Agropecuário 2017 (IBGE), 947 mil mulheres dirigem ou codirigem estabelecimentos rurais — cerca de 19% dos produtores rurais do país 4.
Esses números são expressivos, mas não contam toda a história.

Por trás deles, há milhões de mulheres que trabalham na lavoura, na pecuária, na horticultura, no artesanato, nas agroindústrias familiares e nas feiras — muitas vezes acumulando as funções de mãe, gestora, cuidadora, líder comunitária e empreendedora. Elas acordam antes do sol, e raramente descansam quando ele se põe.

Mesmo assim, apenas 13% das propriedades rurais têm o nome de uma mulher no título da terra, segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) 5.
Isso revela um dado simbólico e estrutural: embora sustentem grande parte da produção, as mulheres ainda lutam por reconhecimento jurídico e autonomia.


O nascimento de uma agenda pública

Em resposta a essa desigualdade, o Brasil criou, em 2022, o Observatório das Mulheres Rurais, coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e pela Embrapa. O objetivo é mapear dados, subsidiar políticas públicas e consolidar indicadores de gênero no campo 6.

A iniciativa dialoga com compromissos assumidos internacionalmente — como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente o ODS 5 (Igualdade de Gênero) e o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável).
Mas, para além de políticas e números, há uma urgência simbólica: escutar as histórias dessas mulheres.


As vozes do campo: entre a força e o silêncio

A escritora gaúcha Cíntia Moscovich, filha de agricultores, certa vez observou:

“A mulher rural tem mãos de terra e olhos de céu. Cuida do alimento e do tempo — sem nunca pedir aplauso.”

Essa frase resume um paradoxo central.
Enquanto nas cidades cresce o debate sobre igualdade e representatividade, no interior do Brasil muitas mulheres ainda vivem à sombra da própria importância. Não se trata de ausência de valor, mas de ausência de visibilidade.

Estudos como o realizado pela Universidade Federal de Viçosa apontam que a identidade da mulher rural é atravessada por múltiplas dimensões: produtiva, afetiva e comunitária 7. Ela trabalha, cria, educa e organiza, mas raramente é nomeada como protagonista. O reconhecimento chega mais tarde — e muitas vezes, por terceiros.


Região Sul: terra fértil e trajetórias femininas

A Região Sul do Brasil — formada por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — tem uma das maiores concentrações de agricultura familiar do país. Mais de 70% das propriedades rurais são familiares, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 8.
Nesse contexto, as mulheres são presença ativa e decisiva, especialmente nas cadeias de produção de leite, hortaliças, tabaco, erva-mate e agroindústria artesanal.

No Rio Grande do Sul, em particular, as mulheres vêm conquistando espaços em cooperativas e movimentos associativos. O Departamento de Economia e Estatística (DEE/RS) e a Emater/RS-Ascar publicaram, em 2022, o relatório Perfil das Mulheres Rurais do RS, baseado em mais de 5 mil entrevistas em 461 municípios gaúchos 9.

Os dados revelam uma multiplicidade de papéis:

  • 85% das entrevistadas realizam trabalho doméstico diário;
  • 72% atuam diretamente na produção agrícola;
  • 40% participam de alguma associação ou cooperativa;
  • e 62% se identificam como responsáveis por decisões no domicílio.

A pesquisa também confirma algo que o senso comum rural já sabia: as mulheres são pilares da sustentabilidade comunitária, cuidando da produção, das pessoas e das tradições.


A identidade missioneira: tradição e pertencimento

Na Região das Missões, no norte gaúcho, essa realidade ganha contornos culturais singulares.
Aqui, a força feminina está entrelaçada a uma herança jesuítico-guarani, marcada por religiosidade, trabalho coletivo e laços de vizinhança.

Os municípios missioneiros — como São Miguel das Missões, Santo Ângelo, Cerro Largo, São Luiz Gonzaga e Palmeira das Missões — compartilham um ethos baseado no pertencimento à terra. É uma cultura que entende o campo não só como lugar de produção, mas de identidade.

Nessa região, as mulheres rurais não são apenas trabalhadoras agrícolas. São também guardiãs da tradição, responsáveis pela transmissão de valores, culinária, fé e memória comunitária.
Elas preservam receitas, cantos, expressões e formas de convívio que ligam o presente às raízes históricas dos povos que construíram as Missões.

E é nessa teia de pertencimento que muitas encontram sentido, mesmo diante de adversidades econômicas e climáticas — como estiagens, perda de colheitas ou oscilações de mercado.
O senso de comunidade se torna um escudo emocional e cultural, uma forma de resistência silenciosa.


Palmeira das Missões: retrato local

Em Palmeira das Missões, cidade que integra o território missioneiro, o rural está presente em cada aspecto da vida social. O município é conhecido por sua vocação agropecuária — especialmente na produção de soja, milho, trigo, leite e suínos — e pela forte presença de propriedades familiares.

Segundo o IBGE Cidades, Palmeira das Missões possui cerca de 34 mil habitantes, dos quais mais de 30% vivem em áreas rurais 10.
A agricultura familiar é a espinha dorsal da economia local, movimentando cooperativas, feiras e programas de alimentação escolar.

Nessa dinâmica, as mulheres rurais assumem múltiplas funções: lideram pequenas agroindústrias, administram a produção leiteira, participam de feiras e, em muitos casos, mantêm viva a cultura local.
Além da economia, elas sustentam a dimensão simbólica do território — são mães, avós, líderes comunitárias, educadoras informais, referências éticas e afetivas.

A Emater/RS-Ascar, que atua na cidade, frequentemente destaca o protagonismo feminino em programas de sustentabilidade, segurança alimentar e empreendedorismo rural.
São mulheres que combinam conhecimento técnico com saberes tradicionais, transformando o cotidiano em inovação social.


Desafios persistentes

Apesar dos avanços, o caminho das mulheres rurais ainda é marcado por barreiras profundas.
Estudos recentes indicam que as desigualdades no campo vão muito além da renda.

  1. Acesso à terra: segundo o Censo Agro 2017, apenas 13% dos imóveis rurais têm mulheres como titulares 4.
  2. Crédito e financiamento: o acesso a programas de incentivo e crédito rural ainda é limitado para mulheres sem titularidade formal da terra.
  3. Infraestrutura: estradas, transporte público e conectividade precária dificultam o acesso a mercados e formação.
  4. Desigualdade de tempo: o acúmulo de funções — produção, cuidado e trabalho doméstico — gera sobrecarga e pouco espaço para lazer ou formação.
  5. Clima e sustentabilidade: as mulheres estão na linha de frente das mudanças climáticas, sofrendo diretamente os impactos de estiagens e crises ambientais.
  6. Reconhecimento simbólico: talvez o obstáculo mais silencioso. Ainda é comum que o trabalho feminino no campo seja visto como “ajuda”, e não como atividade profissional.

Esses desafios estruturais revelam que a luta das mulheres rurais é, ao mesmo tempo, econômica, política e cultural.
E cada avanço nessa frente representa uma semente de transformação social.


Cultura, tradição e resistência

A mulher rural é também guardiã de saberes intangíveis.
Entre a lida com a terra e o cuidado com a família, ela preserva rituais, receitas, festas e costumes que compõem a identidade regional.

No Rio Grande do Sul, isso se traduz em expressões típicas: o chimarrão compartilhado, a horta no quintal, a fé comunitária e as tradições missioneiras. Em cada gesto cotidiano, há um vínculo com a história — um modo de existir que combina resistência e ternura.

As festas coloniais, feiras do agricultor, encontros de mulheres rurais e programas de extensão comunitária são espaços onde essa cultura se manifesta.
Mais do que eventos, são momentos de reconhecimento coletivo — uma forma de dizer: “estamos aqui, fazemos parte”.


Mulheres rurais e o futuro do planeta

O século XXI trouxe novos dilemas.
As mulheres rurais estão no epicentro de desafios globais: mudanças climáticas, transição energética, sustentabilidade alimentar e equidade de gênero.

Organismos como a FAO e a ONU Mulheres vêm reiterando que o empoderamento das mulheres do campo é um dos pilares da segurança alimentar e da adaptação climática 11.

Em muitas regiões brasileiras, são elas as primeiras a perceber os efeitos das secas, das perdas de colheita e das transformações do solo.
Sua experiência prática, combinada com conhecimento ancestral, tem contribuído para estratégias de convivência com o semiárido, preservação de sementes crioulas e gestão sustentável da água.

O futuro, portanto, passa inevitavelmente pelas mãos das mulheres rurais — mãos que conhecem a terra não por teoria, mas por convivência.


Um olhar simbólico: entre a terra e o tempo

Há algo de poético na vida rural feminina.
O tempo não é medido em relógios, mas em colheitas, luas e estações.
Cada amanhecer traz a promessa de continuidade — e cada entardecer, o cansaço de quem deu tudo o que podia.

Na literatura, essa temporalidade é recorrente. Escritoras como Lya Luft e Marilene Felinto trataram, em diferentes contextos, do silêncio das mulheres em espaços de trabalho e cuidado. No campo, esse silêncio é uma forma de resistência — um modo de seguir mesmo sem ser ouvida.

Talvez por isso o Dia Internacional das Mulheres Rurais tenha tanto poder simbólico: ele rompe, por um instante, o ruído urbano e faz ecoar as vozes que sustentam o mundo de forma invisível.


Entre o ontem e o amanhã: um retrato do Sul em movimento

Nos últimos anos, o Sul do Brasil testemunhou o crescimento de feiras femininas, cooperativas de mulheres, movimentos de agroecologia e iniciativas de liderança feminina rural.
Esses espaços não são apenas econômicos — são políticos, culturais e existenciais.

Em municípios missioneiros, mulheres vêm assumindo presidências de sindicatos, coordenando programas de alimentação escolar, liderando agroindústrias e gerindo negócios sustentáveis.
São trajetórias que mostram que o empoderamento no campo não é um conceito importado das metrópoles, mas uma realidade que nasce da própria experiência local.

Como resume o relatório do Departamento de Economia e Estatística do RS:

“A mulher rural gaúcha é protagonista da história, do presente e da sustentabilidade futura do estado.” 9


Um símbolo para lembrar — e agir

O Dia Internacional das Mulheres Rurais não é apenas uma efeméride.
É um lembrete.
Lembra que o alimento que chega à mesa passou por mãos femininas.
Que cada lavoura carrega histórias de vida, de coragem e de silêncio.
Que a cultura regional é tecida, diariamente, por gestos simples e profundos.

Lembra também que, por trás da força, há vulnerabilidades que precisam ser vistas — não para vitimizar, mas para reconhecer e transformar.
E que o desenvolvimento sustentável, tão debatido em fóruns e conferências, começa com algo essencial: o respeito à vida cotidiana de quem mantém o mundo em funcionamento.


Que o Dia Internacional das Mulheres Rurais não seja apenas um marco no calendário, mas um lembrete diário da força silenciosa que move o mundo.
Que cada semente plantada, cada colheita e cada gesto de cuidado sejam reconhecidos como expressões de sabedoria e coragem.
E que a sociedade — do campo às cidades — aprenda a olhar para essas mulheres não apenas como produtoras de alimento, mas como guardiãs da vida e da memória coletiva.

Em Palmeira das Missões, nas Missões e em todo o Brasil, o futuro floresce onde há mãos femininas cuidando da terra.
🌾 Que cada 15 de outubro renove o respeito, a gratidão e a esperança por um mundo mais justo e fértil para todas.


Referências

  1. ONU — Resolution 62/136: International Day of Rural Women. Link
  2. FAO — Rural Women and Agriculture. Link
  3. FAO — Family Farming and Gender Equality. Link
  4. Embrapa — Mulheres dirigem 947 mil propriedades rurais no Brasil. Link
  5. Incra — Mulheres Rurais e Acesso à Terra. Link
  6. Observatório das Mulheres Rurais do Brasil — Embrapa/MDA. Link
  7. UFV — Gênero, Identidade e Agricultura Familiar. Link
  8. IBGE — Agricultura Familiar no Sul do Brasil. Link
  9. DEE/RS & Emater — Perfil das Mulheres Rurais do RS (2022). Link
  10. IBGE Cidades — Palmeira das Missões (RS): Panorama Municipal. Link
  11. ONU

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